quinta-feira, 8 de março de 2012

Fogo e noite.

A cor do fogo à sua frente prendia-lhe o olhar. O dançar das chamas deixava-a vidrada, e a vontade de tocar na madeira crua que ardia ali, tão perto, era quase incontrolável. Este amor ao fogo pode não ser saudável se levado a um extremo, mas nisso ainda conseguia ter mão. Por vezes dava por si a acender um fósforo ou a queimar papel na casa-de-banho ou no alpendre. Era de pedra, por isso não tinha problema. Não se arriscava a fazê-lo no seu quarto ou num lugar com coisas inflamáveis – já bem lhe bastara o episódio da sua infância.

Deixou-se ficar junto à lareira, autorizando-a que a envolvesse com o seu calor, sugando as chamas que tanto lhe apraziam. Que bom era poder aproveitar os segundos da sua vivência que a agradavam, pensou. Deixou-se levar pelo momento e fechou os olhos, debruçando-se ainda mais, o máximo que conseguiu entre sentir-se quente e queimar-se. Assim ficou durante o tempo que quis. A vida tinha coisas boas ainda. Havia que as saber aproveitar.
Foi ver-se ao espelho depois do seu pedaço de tempo no espaço quentinho e reparou que estava corada. Toda aquela palidez diária começara a ser deprimente. Todos aqueles dias sem fim a aperceber-se de todos os defeitos e não ter tempo ou lugar ou paciência para se melhorar um bocadinho; todas as... Tremeu. O frio fez-se notar e um pequeno arrepio interrompeu-lhe os pensamentos. Esboçou um sorriso por ver em si alguma cor e voltou para o seu fogo.