segunda-feira, 9 de abril de 2012

Visita.

A memória surgiu de repente, indesejada e repentina. Assolou-a com uma força tal que foi impossível travá-la, amenizá-la, impedi-la de vir ao de cima... Foi como se o seu coração estivesse a ser apertado. Como se o estivessem a agarrar e a espremê-lo de tal maneira que o sangue já não conseguia sequer circular. Demorou segundos mas pareceu demorar uma noite. Aquela noite... Revivida sem ela querer que o fosse. Remexida quando precisava dela longe de si... No passado, onde pertencia.
A circulação normalizou depressa e o seu organismo recuperou sem complicações. O calor desapareceu e o frio regressou. O que não saiu de dentro dela foi o que aconteceu... Preso na sua cabeça como se tivesse acabado de acontecer. Encurralado dentro de si, sem parecer querer sair.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Fogo e noite.

A cor do fogo à sua frente prendia-lhe o olhar. O dançar das chamas deixava-a vidrada, e a vontade de tocar na madeira crua que ardia ali, tão perto, era quase incontrolável. Este amor ao fogo pode não ser saudável se levado a um extremo, mas nisso ainda conseguia ter mão. Por vezes dava por si a acender um fósforo ou a queimar papel na casa-de-banho ou no alpendre. Era de pedra, por isso não tinha problema. Não se arriscava a fazê-lo no seu quarto ou num lugar com coisas inflamáveis – já bem lhe bastara o episódio da sua infância.

Deixou-se ficar junto à lareira, autorizando-a que a envolvesse com o seu calor, sugando as chamas que tanto lhe apraziam. Que bom era poder aproveitar os segundos da sua vivência que a agradavam, pensou. Deixou-se levar pelo momento e fechou os olhos, debruçando-se ainda mais, o máximo que conseguiu entre sentir-se quente e queimar-se. Assim ficou durante o tempo que quis. A vida tinha coisas boas ainda. Havia que as saber aproveitar.
Foi ver-se ao espelho depois do seu pedaço de tempo no espaço quentinho e reparou que estava corada. Toda aquela palidez diária começara a ser deprimente. Todos aqueles dias sem fim a aperceber-se de todos os defeitos e não ter tempo ou lugar ou paciência para se melhorar um bocadinho; todas as... Tremeu. O frio fez-se notar e um pequeno arrepio interrompeu-lhe os pensamentos. Esboçou um sorriso por ver em si alguma cor e voltou para o seu fogo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Instável.

Não gostava de quando não se apercebia que o dia estava a chegar ao fim. Por vezes ocupava-se de algo e, quando dava por si, a noite já caíra. Não que não adorasse a escuridão – fazia-lhe bem, até; sentia-se em casa. Mas tinha rituais, e ver o dia a chegar e o dia a ir-se embora fazia parte deles. Olhar para o sol uma última vez, despedir-se do céu clarinho enquanto o via a escurecer… Esta rotina fazia já parte de si. Assim parecia que faltava qualquer coisa.

Agora era esperar por amanhã… Algo dentro de si lhe dizia que a noite não se avizinhava tranquila. Já tinha arranjado uma ocupaçãozinha – um filme sério e bem construído, de culto quase – para poder manter a sua cabeça bem focada no irreal. A realidade às vezes doía mais do que outras. Por vezes adormecida, apesar de latejante, como uma ferida aberta deixada ao ar, noutras fazia-se sentir bem, como se um fio de álcool jorrasse por cima dela. Este dia tinha latejado apenas… Mas porque é que parecia que algo, alguma força que ela não sabia identificar, estava a tentar desesperadamente despejar litros de álcool em cima de si? Ela não compreendia.

Fechou os olhos com força e abriu-os de novo. Não queria cair, não outra vez. Já estava vários metros acima do chão, a caminho do seu topo imaginário. Cair agora deitaria por terra o esforço de tanto tempo. Mas todos fraquejamos, pensou. Todos temos os nossos altos e baixos, e todos acabamos por fazer justiça aos clichés intermináveis que por aí andam que, apesar de o serem, retratam tão bem o comportamento humano. Mas todas as quedas deixam marcas. Todos os momentos de fraqueza gravam em nós cicatrizes, umas vezes grandes, outras quase invisíveis. Apesar de tudo, nenhum ser é infinitamente capaz de as aguentar. O espaço para armazenar essas marcas é limitado em todas as pessoas. Quantas vezes, questionou-se ela, conseguiria cair e levantar-se de novo?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

The truth sets you free.

Ultimamente os dias eram passados num estado de adormecimento quase constante. Não fazia mal, claro. Eram coisas que aconteciam mas não podia deixar de esperar que passasse. Sentia-se leve, curiosamente – ou talvez não fosse assim tão curioso.. The truth sets you free, say the wise ones. Embora assim não fosse, sentia-se como se tivesse dito tudo. Embora tivesse um certo jeitinho para disfarçar, ele tinha um certo jeitinho para ler nas entrelinhas. E nem ela era suficientemente boa para esconder as entrelinhas da relação deles. O coração acaba por levar a melhor de nós ao fim de tanto tempo. Ela fraquejava de vez em quando, naturalmente. E ele sabia o que ia no coração dela... De uma forma ou de outra, ele sabia-o bem.

Quando olhou para o céu, viu-a cheia e sorriu.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Culpa.

A noite soubera-lhe bem. Lembrara-lhe os tempos antigos, aqueles seus tempos de criança onde a sua mente tinha ficado, não obstante o desenvolvimento em todos os outros aspectos. A saudade apertava já há algum tempo. Encontrar, por isso, uma forma de a aniquilar, ainda que temporariamente, era refrescante e, de certa forma, um alívio.

Tinha crescido nos últimos dias. Encontros interessantes com pessoas interessantes tinham-na despertado. Apercebera-se de coisas de um momento para o outro, coisas que a acalmavam por um lado e a sobressaltavam por outro. Podia julgar que a ela poderiam ser atribuídos muitos adjectivos negativos, mas não achava que “injusta” fizesse parte dessa lista. “Incompreensiva” também não constava dela. E no entanto fora confrontada com realidades que a levaram a ponderar se não estaria errada. Se não teria de facto agido como nunca pensou que alguma vez pudesse ser capaz de agir. Acalmou-a saber que nem tudo estava perdido, que a palavra “desculpa” ainda conseguia fazer milagres nesta vida. Mas o sucedido intranquilizou-a. Não tanto no que dissera ou fizera, embora tivesse dado a entender que não estava propriamente feliz. Mas ela não era pessoa de dizer coisas más ou de se chatear com alguém: quando algo a perturbava, normalmente mantinha-o dentro de si, longe de conflitos. O que a desconcertava era lembrar-se de tudo o que pensou. De tudo o que se imaginou dizer, de tudo o que planeou deitar cá para fora, apesar de saber que estaria a começar uma discussão. Discussão essa que, via agora, não tinha razão de ser. Não se quisesse baseá-los em amor e compreensão.

Foi dormir pouco descansada, admita-se. Se as noites já eram inquietas, agora nem apenas a isso se davam ao luxo de ser. Sentia-se culpada, e graças a Deus que teria em breve uma oportunidade de ser absolvida. Esperava que as duas ou três horinhas por que ansiava a libertassem um pouco do sufoco recente, deste sentimento tão pouco agradável. Queria revelar-se uma constante onde só se avistava instabilidade. Queria dar um bocadinho de si a quem tanto lhe dera também, a quem tinha tanta necessidade de dar. Queria transmitir-lhe que estava tudo bem.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

19h.

Talvez fosse mesmo de novos ares que precisava. Não que fosse para novos ares no sentido literal: estes eram mais ares antigos. Amigos que são como família não podem ser considerados novos ares só porque não estamos com eles há algum tempo. O factor “tempo” é relativo quando se trata de amizades de infância… Crescer com uma pessoa implica deixá-la voar quando é tempo disso. Custa porque nos habituámos ao facilitismo de a vida ser “aquilo” e nada mais; crescemos todos sem asas e, enquanto isso acontece, não nos damos conta de que elas vão aparecendo aos poucos. Os sonhos têm que ser perseguidos, e não temos todos os mesmos sonhos. Doía-lhe mas era o curso da vida, ela sabia-o. Não significava que o amor, aquele amor profundo e incondicional, não estivesse lá – o amor tinha estado sempre lá, e ela também sabia disso.

9h07.

Não se recordava de grande parte do dia anterior. Tinha sido um dia estranho, com partes em branco e alturas turvas. Passara tão depressa! Não vira o céu clarinho e o sol a espreitar pela sua janela porque saíra de casa antes que ele pudesse sequer lembrar-se de nascer. A auto-estrada estava povoada apesar da hora, o que não a impediu de chegar ao seu destino francamente mais cedo do que o suposto. Mas não se teria arriscado a sair mais tarde… Lembrava-se de tudo o que se passara naquele espaço de 17 horas como se tivesse estado a sonhar. Todas essas memórias – a ida, o “durante”, o regresso, o resto do dia – assemelhavam-se a uma noite inicialmente turbulenta mas com um final feliz. Estava estoirada, nem se lembrava de ter adormecido… Mas devia ter sido logo após a sua cabeça encontrar a almofada. Não se lembrava do cair da noite… Não se lembrava da noite. Fora pequenas aparições curtinhas, pouco lhe vinha à cabeça a não ser uma sensação de bem-estar e segurança. Sim, segurança. Que bom era vencer. Tinha conseguido. De pequenas vitórias se faz a felicidade, alguém lhe dissera, não se recordava bem de quem tinha sido. Mas alguma razão, senão toda, lhe atribuíra. Sim, tinha sido uma pequena vitória. Mas conseguir, finalmente conseguir, dava-lhe a confiança necessária para não desistir. Não era impossível, era o que havia a reter disto. Afinal nem tudo estava perdido.
E apesar do mar de desalento que ia na sua cabeça, por culpa da vida de uma forma geral, foi dormir feliz.

Acordou feliz também. Talvez lhe tivesse feito bem repousar mais um pouco. Paciência, não faria mal com certeza. Ia passear junto ao seu mar dentro em pouco, e isso era o bastante para acelerar o passo na direcção da casa-de-banho. Tomar banho fazia-lhe bem na esmagadora maioria das vezes. A água quente a correr-lhe pelo corpo durante aqueles curtos minutos fazia-a sentir-se renovada no final. Não que assim fosse, claro… Não se registava qualquer sinal de renovação, a sua vida não mudara; o mundo à sua volta era o mesmo. Mas a sensação de um “novo começo” não saía de si, mesmo que tivesse quase toda a certeza de que nada mudaria. Era precisamente a falta dessa certeza na sua íntegra que lhe dava o que precisava para acreditar que algo poderia de facto mudar, para não pôr totalmente de lado a hipótese de alguma coisa diferente acontecer nesse dia, alguma reviravolta inesperada. Estava adormecida por dentro e tal não lhe era estranho. Já se sentira assim antes, e já tivera a reviravolta inesperada antes, que a acordara e lhe devolvera a vida. Aqui ocorreu-lhe de repente que a tinha tido numa altura em que a esperança estava quase toda perdida. E não estava agora. Será que era por isso que não havia uma reviravolta? Porque ela estava à espera?
Ela não queria estar à espera. Ninguém quer, convenhamos. Queria viver bem como estava. Mas como conseguiria tal proeza?