sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Culpa.

A noite soubera-lhe bem. Lembrara-lhe os tempos antigos, aqueles seus tempos de criança onde a sua mente tinha ficado, não obstante o desenvolvimento em todos os outros aspectos. A saudade apertava já há algum tempo. Encontrar, por isso, uma forma de a aniquilar, ainda que temporariamente, era refrescante e, de certa forma, um alívio.

Tinha crescido nos últimos dias. Encontros interessantes com pessoas interessantes tinham-na despertado. Apercebera-se de coisas de um momento para o outro, coisas que a acalmavam por um lado e a sobressaltavam por outro. Podia julgar que a ela poderiam ser atribuídos muitos adjectivos negativos, mas não achava que “injusta” fizesse parte dessa lista. “Incompreensiva” também não constava dela. E no entanto fora confrontada com realidades que a levaram a ponderar se não estaria errada. Se não teria de facto agido como nunca pensou que alguma vez pudesse ser capaz de agir. Acalmou-a saber que nem tudo estava perdido, que a palavra “desculpa” ainda conseguia fazer milagres nesta vida. Mas o sucedido intranquilizou-a. Não tanto no que dissera ou fizera, embora tivesse dado a entender que não estava propriamente feliz. Mas ela não era pessoa de dizer coisas más ou de se chatear com alguém: quando algo a perturbava, normalmente mantinha-o dentro de si, longe de conflitos. O que a desconcertava era lembrar-se de tudo o que pensou. De tudo o que se imaginou dizer, de tudo o que planeou deitar cá para fora, apesar de saber que estaria a começar uma discussão. Discussão essa que, via agora, não tinha razão de ser. Não se quisesse baseá-los em amor e compreensão.

Foi dormir pouco descansada, admita-se. Se as noites já eram inquietas, agora nem apenas a isso se davam ao luxo de ser. Sentia-se culpada, e graças a Deus que teria em breve uma oportunidade de ser absolvida. Esperava que as duas ou três horinhas por que ansiava a libertassem um pouco do sufoco recente, deste sentimento tão pouco agradável. Queria revelar-se uma constante onde só se avistava instabilidade. Queria dar um bocadinho de si a quem tanto lhe dera também, a quem tinha tanta necessidade de dar. Queria transmitir-lhe que estava tudo bem.

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