Não se recordava de grande parte do dia anterior. Tinha sido um dia estranho, com partes em branco e alturas turvas. Passara tão depressa! Não vira o céu clarinho e o sol a espreitar pela sua janela porque saíra de casa antes que ele pudesse sequer lembrar-se de nascer. A auto-estrada estava povoada apesar da hora, o que não a impediu de chegar ao seu destino francamente mais cedo do que o suposto. Mas não se teria arriscado a sair mais tarde… Lembrava-se de tudo o que se passara naquele espaço de 17 horas como se tivesse estado a sonhar. Todas essas memórias – a ida, o “durante”, o regresso, o resto do dia – assemelhavam-se a uma noite inicialmente turbulenta mas com um final feliz. Estava estoirada, nem se lembrava de ter adormecido… Mas devia ter sido logo após a sua cabeça encontrar a almofada. Não se lembrava do cair da noite… Não se lembrava da noite. Fora pequenas aparições curtinhas, pouco lhe vinha à cabeça a não ser uma sensação de bem-estar e segurança. Sim, segurança. Que bom era vencer. Tinha conseguido. De pequenas vitórias se faz a felicidade, alguém lhe dissera, não se recordava bem de quem tinha sido. Mas alguma razão, senão toda, lhe atribuíra. Sim, tinha sido uma pequena vitória. Mas conseguir, finalmente conseguir, dava-lhe a confiança necessária para não desistir. Não era impossível, era o que havia a reter disto. Afinal nem tudo estava perdido.
E apesar do mar de desalento que ia na sua cabeça, por culpa da vida de uma forma geral, foi dormir feliz.
Acordou feliz também. Talvez lhe tivesse feito bem repousar mais um pouco. Paciência, não faria mal com certeza. Ia passear junto ao seu mar dentro em pouco, e isso era o bastante para acelerar o passo na direcção da casa-de-banho. Tomar banho fazia-lhe bem na esmagadora maioria das vezes. A água quente a correr-lhe pelo corpo durante aqueles curtos minutos fazia-a sentir-se renovada no final. Não que assim fosse, claro… Não se registava qualquer sinal de renovação, a sua vida não mudara; o mundo à sua volta era o mesmo. Mas a sensação de um “novo começo” não saía de si, mesmo que tivesse quase toda a certeza de que nada mudaria. Era precisamente a falta dessa certeza na sua íntegra que lhe dava o que precisava para acreditar que algo poderia de facto mudar, para não pôr totalmente de lado a hipótese de alguma coisa diferente acontecer nesse dia, alguma reviravolta inesperada. Estava adormecida por dentro e tal não lhe era estranho. Já se sentira assim antes, e já tivera a reviravolta inesperada antes, que a acordara e lhe devolvera a vida. Aqui ocorreu-lhe de repente que a tinha tido numa altura em que a esperança estava quase toda perdida. E não estava agora. Será que era por isso que não havia uma reviravolta? Porque ela estava à espera?
Ela não queria estar à espera. Ninguém quer, convenhamos. Queria viver bem como estava. Mas como conseguiria tal proeza?
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