domingo, 12 de fevereiro de 2012

Voz interior.

A noite tinha sido turbulenta e acordou a precisar de algo pacífico, calmo, simples até. O céu não a desiludiu. Estava liso e azul, sem laivos de outras cores ou feitios. Não se via o sol, pelo menos não daquele lado da casa. Mas também não se vislumbrava qualquer pedacinho de nuvem, mais parecendo a cor do céu aquela que se vê no mar depois de uma intempérie.
Dia engraçado para fins de Janeiro, pensou. Não se lembrava do último Inverno em que tinha assistido a tantos assim, uns atrás dos outros, recheados desta claridade luminosa que a atraía por um lado, levando-a por outro à exaustão. Cansava ver oportunidades de felicidade lá fora, tendo em conta tudo o que se passava cá dentro, apercebia-se de vez em quando. Sem dúvida que se sentia leve por instantes. Mas eram breves, esses, e a isso já estava ela habituada.

Fechou as cortinas e afastou-se, aproximando-se de seguida para as abrir novamente. Faria algum mal, indagava-se, acompanhar as horas que a esperavam desta vida exterior? Concluiu que não, apesar da reflexão duradoura; sempre se afigurava melhor do que tentar esconder aquele paraíso infernal atrás de uma amálgama de tecido que deixava passar a luz quando estava luz e a escuridão quando escuro estava.
Enquanto se afastava da janela pensou nas saudades que por vezes a assolavam dos dias sombrios, aqueles que a tranquilizavam quase impreterivelmente. Mais parecia que estava a cair a noite ao longo do dia inteiro, constatou interiormente, esboçando um sorriso. A cor do céu nessas alturas assemelhava-se à do mar antes de uma tempestade prestes a rebentar.
É vox populi que o céu está triste nesses dias – o cinzento é dos tons que dão frequentemente uma sensação de desalento e morbidade dentro de nós. Que fosse, pensava ela. Não lhe interessava grandemente. O importante era o que sentia quando ia à janela nessas alturas, a identificação com os tons adormecidos. Sentia uma passividade quase relaxante. Se chovesse, então, seria a cereja no topo do bolo – não que gostasse muito de cerejas, muito menos de misturar frutas com bolos. Dava-lhe um sabor amargo ao paladar, parecia-lhe que não ligava. Mas essa também é vox populi e por isso dizemo-la aqui para uma melhor compreensão.

Se chovesse ela sorriria com toda a certeza, por dentro e por fora. É difícil explicar porquê, devido à complexidade geral de justificar o que sente uma pessoa perante este ou aquele acontecimento. Nem ela sabia dizer. Aguardava no entanto, ora pacientemente, ora com bastante ansiedade, alguém que a soubesse esclarecer, alguém que lhe dissesse porque é que ela sentia aquilo dentro de si que a levava a sorrir quando lhe parecia impossível tal acontecer. Quem soubesse pôr-lhe tudo isto em palavras seria, pondo por agora de lado tudo o resto, nomeadamente o seu brilhantismo por conseguir dar voz ao que o coração dita, um possível candidato ao lugar da sua “alma-gémea”, lugar esse que se encontrava aparentemente desocupado desde que entrara neste sítio estranho a que chamam “Mundo”, nesta condição a que chamam “vida”, rodeada por esta constante a que chamam “tempo”, quase há duas décadas atrás.

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